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Folha de S. Paulo - 2009
São Paulo - Brasil
Tudo bem, tudo normal?
Por que a AL cairia mais que o
mundo se nosso sistema bancário está intacto, nossas reservas
continuam altas?
29/03/09
Rubens Ricupero
O COMÉRCIO mundial vai cair 9%. A economia global passa de
previsão de crescimento de 2,2% em novembro para queda de 0,5% a 1%
agora. O cauteloso Banco da China publica artigo defendendo moeda
internacional para substituir o dólar. Morgan Stan- ley prevê que o
Brasil vai encolher 4,5%, e a América Latina, 4,3%.
Notícias parecidas com uma dessas só aconteciam antes uma vez a cada
70 anos, ou nunca. Hoje, elas se sucedem em dois ou três dias e
ninguém se abala. Depois de tantos trilhões de déficits e dívidas,
perdemos a capacidade de assombro. Quando gastarmos os trilhões,
como contaremos os zeros, com zilhões? Tendo passado um quarto de
século na monotonia do comércio crescendo por ano dois ou três
pontos acima da produção, nunca pensei que o veria despencar num
colapso de nove pontos (reluto em crer).
Nos meus dias de Nações Unidas, uma camisa-de-força seria
providenciada para quem imaginasse que os chineses voltariam à ideia
de Keynes sobre uma moeda de reserva (o bancor), independente de
qualquer país. Pior, que sugerissem haver chegado a hora de começar
a pensar em pôr um ponto final no incontrastável domínio do dólar.
Não faz muito tempo um economista não arriscaria a reputação em
prever para o Brasil e a América Latina tombos tão abaixo do
consenso médio, como essa estimativa que apenas mereceu uma ironia
do presidente Lula. O que está sucedendo? Perdeu-se a noção do
normal, mesmo um palpite implausível vale tanto quanto outro
qualquer?
É verdade que o desempenho da América Latina costuma acompanhar de
perto o da economia global, até mesmo pela intensidade dos vínculos
que mantém com os Estados Unidos. Durante os seis anos de ouro de
2003 a 2008, a região foi empurrada pelo vento mundial e cresceu à
média de 5% por ano e 3% per capita, algo muito raro. Compreende-se
que acompanhe agora o mundo na queda, mas tanto assim?
Por que cairíamos mais que o mundo se nosso sistema bancário está
intacto, nossas reservas continuam altas e os fundamentos fiscais
são muito melhores? Ao contrário dos Estados Unidos, não temos
problemas estruturais com o sistema financeiro, os setores de
imóveis ou de automóveis. Os déficits externos ou fiscais são de
moderados a baixos, existe espaço para reduzir os juros, coisa que
desapareceu nos países avançados.
O comércio certamente sofrerá, e um indício é a mudança nos termos
de intercâmbio (a relação dos preços das exportações com os das
importações). De 2001 a 2008, esses termos melhoraram em 28%. Apenas
em 2009, espera-se uma deterioração de 15,6%, sobretudo devido ao
mergulho nos preços do petróleo e dos metais. Por outro lado, nem de
longe dependemos das exportações tanto quanto chineses e asiáticos.
No entanto as previsões para eles são muito mais benignas. Tenho me
consolado nestes dias lendo como a América Latina se saiu numa crise
bem pior, a dos anos 30, que, para nós, não merece ser chamada de
Grande Depressão.
Após chegar ao fundo do poço em 1932-33, uma a uma todas as
economias da região logo recuperaram o crescimento de antes da
crise. A Colômbia já em 1932, o Brasil em 1933, o México em 1934, a
Argentina em 1935. Substituímos a demanda do setor externo com a
puxada pela indústria interna e saímos da crise mais cedo e
industrializados. Não seria possível repetir o remédio com as
indispensáveis adaptações?
...
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