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Economia, tecnologia e os tons distintos de
felicidade
Conferência Internacional
Grandes Esperanças:
Economia, Tecnologia e Felicidade
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial
23 e 24 de Abril de 2001
Será que a atual Revolução da Informação reverterá realmente a
tendência de desigualdade crescente no interior dos países e entre
eles, ou acabará por ser um importante fator a mais que contribui
para aquela tendência? Será que ela expandirá ou reduzirá o
controle, já limitado, que exercemos sobre a volatilidade
financeira, as bolhas econômicas como a das ações de tecnologia, a
precariedade do emprego e até mesmo das vidas humanas? A essas
questões só podemos humildemente responder que não sabemos. Pode dar
certo ou errado, dependendo da maneira como conduzirmos o processo
de mudança.
Se procurarmos a resposta na história, esta não nos ajudará muito.
Aqueles que, com exuberância um tanto exagerada, gostam de comparar
o que estamos testemunhando com a Revolução Industrial, geralmente
esquecem um aspecto perturbador daquele fenômeno notável: ela foi
não apenas, junto com a Revolução Agrícola do Neolítico, um dos
avanços mais fundamentais em produtividade da história da
humanidade. Ela também criou o fosso entre os países do Ocidente e o
resto do mundo, fosso que só se alargou desde então. De maneira
poderosa e talvez sinistra, ela inventou o subdesenvolvimento, ao
mesmo tempo em que criava o desenvolvimento.
O falecido historiador econômico Paul Bairoch mostrou que, no início
do século XVIII, a diferença nos níveis de produção entre a Europa
ocidental e os principais países do que viria mais tarde a ser
chamado de Terceiro Mundo, incluindo a China, era da ordem de 1,2 ou
1,3 para 1 - ou seja, entre 20 e 30 por cento. O mesmo era verdade
com relação às diferenças em tecnologia, produtividade, bem-estar.
Hoje em dia, a diferença se elevou exponencialmente em centenas de
pontos percentuais.
O mesmo padrão pode ser constatado quando analisamos a primeira
Revolução da Informação, a invenção da imprensa por Gutenberg.
Alguns de seus contemporâneos extraíram da invenção a conclusão
correta. Assim promoveram a alfabetização e colocaram livros,
começando com a Bíblia, nas mãos do povo. Outros não o fizeram. No
Brasil, por exemplo, o funcionamento da primeira impressora só foi
autorizado no início do século XIX, quando o Rei de Portugal,
fugindo dos exércitos de Napoleão, para cá se mudou.
Em ambos os casos, a dificuldade não está nas inovações tecnológicas
- a tipografia no primeiro caso, à qual deveríamos acrescentar hoje
o computador, o satélite de telecomunicações, a telefonia celular -
mas sim na mudança de atitude requerida pelo advento dessas
tecnologias; mudanças nas maneiras tradicionais de fazer as coisas e
fazer negócios, e a adoção de políticas apropriadas nos níveis
internacional e doméstico que permitiriam o aproveitamento total do
progresso tecnológico.
Essas mudanças não são de maneira nenhuma conseqüência automática ou
resultado inevitável das grandes viradas tecnológicas da história.
Mais cedo ou mais tarde, essas mudanças se espalharam pelo mundo, ou
pela maior parte dele. Mas as diferenças na velocidade de propagação
determinarão quem ficará para trás, tornando-se subdesenvolvido ou
marginalizado, como aconteceu após a Revolução Industrial.
Para uma organização como a UNCTAD, que enxerga os eventos sob a
perspectiva do desenvolvimento e avalia a necessidade não apenas de
medidas com o objetivo de disciplinar os devedores mas também de
políticas dirigidas aos credores, a questão básica é de indagar se o
ambiente global está suficientemente equilibrado e saudável para
apoiar um padrão de crescimento puxado pelas tecnologias de
informação que possa trazer benefícios significativos para os países
mais pobres. O fato de que a introdução dessas tecnologias coincidiu
com crescimento mais rápido ou mais lento é um estímulo para a
reflexão. Há claramente algumas realidades fundamentais sobre
mudança tecnológica que precisam ser encaradas.
A mudança tecnológica não é uma panacéia universal, nem é ela
autônoma com relação às outras condições que prevalecem em uma dada
sociedade. Ela é de difícil acesso e adaptação; seus mercados são
freqüentemente imperfeitos ou inexistentes; e ela depende de uma
série de "capacidades sociais" nem sempre presentes.
Nem é ela independente do seu contexto macroeconômico. O novo
conhecimento está sempre presente sob a forma de novos equipamentos
e de novas qualificações humanas. Sua difusão e absorção requerem
investimentos, muitas vezes em larga escala e quase certamente
dependendo de considerável participação do setor público. Apenas o
esforço empresarial não será capaz de produzir maiores ganhos
sócio-econômicos.
Os Estados Unidos têm sido os líderes incontestáveis no uso de novas
tecnologias, gozando das vantagens conseqüentes sob a forma de mais
rápido crescimento da produtividade e maior criação de empregos. O
panorama econômico americano já foi completamente transformado por
uma revolução tecnológica que estimula outros países, inclusive os
mais pobres do mundo. Uma das maneiras usadas pelas empresas
européias e japonesas para se atualizar nessa competição tem sido a
aquisição de empresas ou a abertura de filiais nos Estados Unidos.
Esse movimento desencadeou uma onda de fusões e aquisições
internacionais nos setores de novas tecnologias. Mas a maior parte
das empresas dos países em desenvolvimento obviamente não participa
do jogo de fusões e aquisições, a não ser como perdedoras ou objeto
das aquisições.
Há outros desenvolvimentos preocupantes que derivam da ruptura
tecnológica. O encurtamento do ciclo de produção para muitos
produtos de tecnologia aumenta os gastos de P&D, intensificando as
pressões competitivas sobre as firmas dos países em desenvolvimento.
Novas atividades centradas no conhecimento tendem a usar menos
recursos naturais, exacerbando tendência já desfavorável nos preços
das commodities. Empregos bem pagos no campo da tecnologia da
informação estão atraindo algumas das mais brilhantes inteligências
dos países em desenvolvimento em uma espécie de "erosão" dos seus
recursos.
Outra preocupação surge da tendência de proteger em excesso os
direitos de propriedade intelectual. Como Jeffrey Sachs
incisivamente colocou em artigo recente, "os países ricos deveriam
usar de moderação no exercício de direitos de propriedade
intelectual. Os países ricos estão afirmando unilateralmente
direitos de propriedade privada sobre seqüências genéticas humanas e
vegetais, ou códigos computacionais básicos, ou compostos químicos
há muito tempo usados em remédios herbáceos. Essas abordagens são de
legitimidade duvidosa e aumentarão as desigualdades globais. É
preciso encontrar melhor equilíbrio entre os incentivos para a
inovação, por um lado, e os interesses dos mais pobres, pelo outro".
Mesmo nos países industrializados, o empreendedor compete com o
capitalista pela conquista da alma das novas tecnologias,
alimentando uma bolha financeira global em ações de empresas de
tecnologia, cujos preços até recentemente vinham subindo mais rápido
do que a produtividade. O medo de um prolongado "crash" no mercado
de ações desse setor permanece uma preocupação das autoridades
econômicas e analistas no mundo todo. Além disso, o impacto de uma
"aterrissagem forçada" poderá ser especialmente mais prejudicial
para os países em desenvolvimento.
Esses problemas concretos, incluindo a preocupação de que a
tecnologia estaria retirando de nós o controle sobre nossas próprias
vidas, estão no âmago do medo generalizado criado pela globalização.
Tais problemas devem, no entanto, ser contrabalançados pelas não
menos brilhantes e encorajadoras promessas da globalização. De fato,
para os países em desenvolvimento, a emergência de economia global
baseada na informação deveria, em princípio, ser boa notícia. Na
medida em que a relação entre a potência e o preço de equipamento de
informática continua subindo, e o custo da transmissão de informação
sobre fronteiras cai, abrem-se oportunidades sem precedentes para
reduzir o atraso. Ao mesmo tempo, a portabilidade, flexibilidade, e
o baixo custo dessas tecnologias permitem que pequenos atores se
tornem competidores globais.
Uma resposta eficaz a esses desafios exigirá, como nas revoluções
tecnológicas do passado, novas atitudes e mentalidades. Reforçar a
base de recursos através da educação, pesquisa e desenvolvimento e
treinamento será essencial. Um tipo de tratamento mais favorável
será indispensável tanto para os usuários como para os produtores
potenciais de novas tecnologias em países em desenvolvimento. Na sua
ausência, esses países permanecerão apenas como essas oficinas de
lamentáveis condições de trabalho e salário baixo, onde as rendas
serão determinadas pelo valor agregado por uma força de trabalho
barata que se ocupará apenas da montagem de produtos de alta
tecnologia, enfrentando, portanto, uma defasagem tecnológica sempre
crescente em relação à criação e à inovação de produtos.
A verdade é que não existem soluções tecnológicas rápidas para o
desafio do desenvolvimento, nem pode o desenvolvimento das
tecnologias de informação ser perseguido isoladamente das questões
"velhas" da economia tradicional. O investimento permanece a chave
decisiva para o crescimento na era digital, da mesma maneira que o
foi nos tempos áureos das ferrovias. Dado que o investimento em
linhas telefônicas, satélites e computadores envolve novas
tecnologias por meio da importação de bens de capital e acordos de
licenciamento, a recuperação do atraso tecnológico exige moeda forte
para pagar as importações necessárias.
Já faz algum tempo que a UNCTAD vem exortando os líderes dos países
ricos a considerar seriamente os desequilíbrios e assimetrias
globais que vêm danificando as perspectivas para os países em
desenvolvimento. Apesar de todo o seu potencial, as novas
tecnologias não são uma via expressa para a prosperidade econômica
para todos, e sim parte integral de uma estrutura global que
permanece com um viés pesado contra os pobres e os menos
afortunados. A cooperação regional pode ser uma maneira para os
países em desenvolvimento desafiarem esse viés, criando os mercados
de tamanho suficiente para apoiar seus esforços tecnológicos. Essa
cooperação pode ser também a mais apropriada para o estabelecimento
de novos arranjos financeiros comparáveis aos disponíveis para as
empresas de alta tecnologia nos países desenvolvidos.
Mas no final das contas são os países avançados que precisam
repensar sua abordagem sobre o desenvolvimento na era digital,
facilitando o acesso à tecnologia e apoiando-o através de maior
acesso aos seus mercados e por meio do fornecimento de recursos
externos para os países em desenvolvimento, incluindo-se entre esses
meios a assistência ao desenvolvimento e o alívio mais eficaz da
dívida.
Independente do que façam ou deixem de fazer os países avançados, a
resposta para os problemas de desigualdade e pobreza extremas não
virá apenas da tecnologia e da economia. A solução desses problemas
dependerá de valores como a equidade, a solidariedade e a compaixão,
que pertencem a um domínio bastante distinto. Tecnologia e economia
devem ser tratadas como o que são-instrumentos não autônomos e não
absolutos de grande utilidade-mas devem ser também resolutamente
subordinadas a uma aspiração humana muito mais nobre: a criação de
uma sociedade mais justa, generosa e equilibrada.
RUBENS RICUPERO, secretário-geral da UNCTAD (Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento); presidente honorário do
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.
Tradução de João Maurício Teixeira da Costa
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