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Entrevistas
Lula não deve temer a Alca, diz Ricupero
Folha de S. Paulo
Autor: MARCIO AITH
DE WASHINGTON
01/11/2002
Para embaixador, cotado
para ministério, presidente eleito não pode desprezar importância do
mercado dos EUA
O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, não deve temer as
negociações da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) nem
desprezar a importância do mercado dos EUA ao estabelecer sua
estratégia de comércio exterior.
Essa é a opinião do
embaixador Rubens Ricupero , 65, secretário da Unctad (Conferência
das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e um dos mais
cotados para assumir o Ministério das Relações Exteriores ou o da
Fazenda no próximo governo.
"O mercado americano é de
longe o que tem maior propensão a importar", disse em entrevista
telefônica concedida de sua casa, em Genebra, na Suíça. "Não acho
que o Brasil deva ter tanto medo das negociações da Alca."
Ex-ministro da Fazenda durante o governo Itamar Franco, nega que
tenha sido convidado para participar do ministério de Lula.
*
Folha - Como Lula poderá fazer para não frustrar expectativas que
criou? Na campanha, ele disse que a população não pode trabalhar de
dia para pagar juros à noite. Mas há sinais de que está disposto a
elevar a meta de superávit primário e os esforços para pagar juros.
Disse que a Alca seria uma forma de anexação do Brasil pelos EUA.
Mas terá 45 dias para apresentar propostas de oferta aos mercados
nessa negociação. Como fazer agora?
Ricupero - Não quero falar
sobre política econômica, porque não conheço os dados atuais. Sobre
a Alca, vi menção à sua negociação no próprio discurso de Lula
depois de eleito. Vejo aí um caminho muito claro: fazer o que fazem
os americanos. Procurar expressar a posição do setor privado
exportador. O setor privado exportador do Brasil é diversificado.
Alguns têm mais interesse na Alca que outros. O caminho sensato e
realista seria chamá-lo para que ele defina seu interesses. É claro
que não é possível ter a unanimidade de todos os setores econômicos,
mas pode-se encontrar uma posição majoritária. Se Lula fizer isso,
estará de acordo com sua própria plataforma, de representar a
posição da sociedade.
Folha - O ex-ministro Luiz
Carlos Mendonça de Barros disse que Lula passará vergonha ao dizer
que alguns compromissos do PT vão ter que ser adiados em razão da
situação econômica. O sr. concorda?
Ricupero - Estou muito
afastado desses temas da economia brasileira. Nessa área prefiro não
arriscar. Falo mais sobre esses assuntos de comércio, de relações
internacionais, porque é meu cotidiano. Aliás, tenho evitado falar,
porque tem muita especulação.
Folha - Tem mesmo. Aliás,
quando esta entrevista for publicada, vão dizer que o sr. não quis
falar de assuntos econômicos porque está negociando a pasta das
Relações Exteriores, e não a da Fazenda.
Ricupero - Nada disso tem
fundamento. Nunca fui procurado, não tenho nenhuma indicação de que
isso vá ocorrer. Nem sei explicar de onde vem essas coisas. Tenho
certa relutância em falar porque dá a impressão de que eu estou
procurando, estou buscando. Por favor, deixe claro que foi o sr. que
me procurou. Estou no meu emprego na ONU e não estou procurando
coisa alguma.
Folha - De onde vêm os
rumores?
Ricupero - Eu acho que tudo
isso só tem uma existência na base das especulações que são naturais
nessa época. Compreendo que todo mundo quer saber e, como não há
informações de fontes seguras, há essas especulações.
Folha - O sr. diria se
tivesse sido procurado pelo Lula?
Ricupero - Se eu tivesse
sido procurado, não mentiria. Isso eu te garanto. Não teria te dito,
taxativamente como estou dizendo, que eu não recebi nenhum tipo de
indicação. Eu teria dito: "Não posso falar sobre isso".
Folha - O sr. participou
daquele que teria seria o processo de transição do governo
Figueiredo para o de Tancredo. Qual é o risco de ficarmos meses
amarrados a um processo de transição?
Ricupero - Nosso sistema
não é muito bom. As fases de transição em países vulneráveis, como o
Brasil e a Argentina, estimulam esse tipo de especulação. Deveríamos
caminhar para uma situação mais parecida com a de regimes
parlamentares, em que, imediatamente conhecidos os resultados
eleitorais, quem ganha assume o poder. Na Inglaterra assume no dia
seguinte. Na França, quase no dia seguinte. Não vejo nenhuma
incompatibilidade entre o regime presidencial e uma transição mais
rápida. Evitaria esse interregno.
Durante ele, toda sorte de
instabilidade ocorre, com especulações. Só que agora não vai ser
possível mudar isso. A transição no Brasil está sendo muito
tranquila, pelo que sei. Mas, mesmo assim, se o problema é a
incerteza quanto a nomes, isso não resolve. Só resolve quando você
assume e tem o controle. Todas as soluções têm seu lado positivo e
negativo. Se for nomeada uma pessoa, qualquer respiro dela será
analisado de todas as formas. Então, acho que há uma sabedoria por
parte do Lula em não ceder.
Folha - Até que ponto seria
conveniente para Lula afastar-se politicamente dos EUA ou assumir
uma postura mais confrontacionista nas relações comerciais?
Ricupero - Não acho
necessário nem para o Lula, nem para qualquer governo brasileiro
afastar-se dos EUA. Acho que nosso objetivo deve ser sempre ter o
melhor relacionamento possível com os americanos. Tudo fala em favor
disso. Hoje em dia, não vejo conflito de interesses entre os EUA e o
Brasil. O que há são os problemas comerciais que estarão sempre aí,
que existem mesmo entre os EUA e o Reino Unido, o aliado mais
estreito dos EUA. Portanto, não vejo nenhum conflito fundamental de
interesses e acho perfeitamente possível ter um relacionamento
mutuamente respeitoso.
Folha - O sr. disse
recentemente que o Brasil perdeu a chance de tirar proveito
comercial do boom econômico americano na década de 90. Não corremos
o risco de desperdiçar o próximo se concentramos esforços para
atingir mercados na China e na Índia?
Ricupero - O mercado
norte-americano é de longe o que tem maior propensão a importar.
Muito mais que a Europa. Você sabe que a maior parte do comércio
deles é intra-europeu. Os EUA são o grande mercado. Tanto que, nos
últimos cinco ou seis anos, eles foram quase que a fonte única de
crescimento da demanda de exportações do mundo.
Só tenho pena que, devido àquele problema do câmbio, só tenhamos
conseguido aproveitar o final desse período, em 99 e 2000. É uma
pena também que muitos dos produtos que exportamos tenham tido
preços em queda. Aumentamos o volume das exportações, mas não o
valor. Mesmo assim, os EUA representam cerca de 25% do total. Quando
eu estava em Washington [como embaixador], num período mais baixo do
nosso comércio, os EUA representavam apenas 19%, 20% ou 21%.
Portanto, houve uma melhoria.
E há espaço para ser criado no mercado americano. Portanto, concordo
que os EUA têm, de longe, o mercado mais interessante. Inclusive, é
nosso melhor mercado de aeronaves e de produtos de tecnologia. Não
sou daqueles que dizem que os EUA são sistematicamente
protecionistas. Não são. Se fossem, não teriam esse déficit de quase
5%.
A China tem crescido em grande parte por causa do mercado americano.
Agora, é verdade também que importa muito, talvez nem tanto de nós.
Boa parte das importações chinesas é na parte de insumos, que eles
reelaboram. E a Índia está começando a mudar. Além disso, há
surpresas. O mercado russo, por exemplo, está crescendo muito.
Folha - Qual deve ser o
destino do Mercosul? Tendo em vista as turbulências econômicas no
Brasil e na Argentina, não seria mais adequado ao Brasil tentar algo
menos ambicioso, como transformar o Mercosul numa zona de livre
comércio em vez de uma união aduaneira?
Ricupero - Na minha
impressão, hoje em dia os dois países já têm mais uma zona de livre
comércio que uma verdadeira união aduaneira. Sabemos que essa união
sempre foi muito perfurada. Há um certo elemento de ficção nisso. Há
a vontade política de manter o Mercosul como união, mas é preciso
ver se a realidade permite.
Para ter realmente uma união aduaneira, seria importante que os dois
retomassem essa condição com uma certa dinâmica. Não sei se isso é
possível nesse momento. Isso dependeria da recuperação do comércio.
De qualquer forma, os argentinos têm muitos interesses em comum
conosco. Sempre tivemos um comércio bilateral forte com a Argentina,
e ele não vai desaparecer. Uma das causas de não termos aumentando
tanto nossas exportações totais no começo deste ano foi que as
exportações para a Argentina tinham caído de maneira brutal.
Folha - O bloco do Nafta
(Acordo de Livre Comércio da América do Norte) ultrapassou
recentemente o Mercosul e tornou-se o maior destino de nossas
exportações.
Ricupero - Nossas
exportações para o México aumentaram muito. Devo dizer que nunca
acreditei nessa tese de Mercosul como uma espécie de alternativa.
Vejo o Mercosul como uma estratégia comercial que tente multiplicar
as oportunidades. Ele deve ser um acordo de integração aberto. Que
permita a adesão de outros.
E, realisticamente, não podemos imaginar que os outros
latino-americanos não vão ter interesse no mercado dos EUA, que é o
mais importante para eles. Então, você tem que ter uma visão
realista. Assim como eles têm interesse no nosso mercado, eles têm
interesse no mercado americano. E nós também devemos ter.
Não acho que o Brasil deva ter tanto medo da negociação da Alca. A
competitividade brasileira tem aumentado muito. Não sei quem vai ter
mais problemas quando sentarmos na mesa de negociação [se o Brasil
ou os EUA]. Porque, com a desvalorização que está havendo no Brasil,
há muitas áreas brasileiras com uma competitividade muito acrescida
neste momento.
Folha - Mas o sr. acha que
a competitividade vinda única e exclusivamente do câmbio favorecido
é sólida? Assim que o país começar a exportar, começa a gerar
divisas e o câmbio se fortalece novamente.
Ricupero - É verdade. Não
vai durar para sempre. Mas nesse ínterim o país deve encontrar
maneiras de reduzir a carga tributária, melhorar as condições de
financiamento das exportações e reduzir os custos logísticos.
Folha - Como o Brasil deveria reagir se o governo dos EUA convidasse
o país para uma negociação bilateral de livre comércio?
Ricupero - O Brasil tem que
examinar qualquer proposta de negociação direta que receber. No
entanto, teríamos de examiná-la à luz dos compromissos que o país
tem no Mercosul e na OMC.
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