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Brasil em foco
Rubens
Ricupero:“Brasil só pode competir com os gigantes na área da
agricultura”
Agosto de 2008
“Juros mais baixos e câmbio mais
favorável beneficiariam muito mais do que qualquer concessão, porque
as negociações comerciais, mesmo quando terminam bem, só produzem
efeitos depois de quatro ou cinco anos”, assinala Rubens Ricupero,
ex-secretário geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre
Comércio e Desenvolvimento), em entrevista concedida por telefone à
IHU On-Line. Embora acredite que uma mudança radical na política
econômica brasileira seja o caminho mais eficiente para gerar
acordos comerciais bilaterais, Ricupero aprova a posição “flexível”
assumida pelo Brasil na Rodada Doha, em Genebra, na última semana.
“O interesse nacional exigia que o país tivesse uma atitude de
aceitação”, disse. E dispara: “Nós não poderíamos ficar numa postura
negativa apenas por causa das dificuldades existentes na Índia,
China e Argentina”. Com a proposta oferecida pela União Européia,
acrescenta, “percebia-se a possibilidade de firmar um acordo
aceitável, mais modesto, mas que dava ao Brasil um avanço em
agricultura”. Segundo ele, Doha representou novamente um fracasso
mundial, mas o Brasil ganhou crédito com os países ricos, o que
poderá levar a transações futuras, como a comercialização de etanol.
No que se refere às relações com os aliados do G-20, Ricupero é
enfático e acredita que chegou a hora do Brasil se separar daqueles
países desinteressados na liberalização agrícola: “Fiquei surpreso
que eles conseguiram sobreviver tantos anos, porque essa aliança era
apenas de circunstância”, aponta.
Rubens Ricupero é graduado em Ciências Jurídicas e Sociais, pela
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente,
é diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares
Penteado (FAAP) e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo.
Diplomata de carreira desde 1961, exerceu, dentre outras, as funções
de assessor internacional do presidente Tancredo Neves (1984/1985),
assessor especial do presidente da república José Sarney
(1985/1987), representante permanente do Brasil junto aos órgãos da
ONU sediados em Genebra (1987-1991) e embaixador nos Estados Unidos
(1991-1993). Assumiu ainda os ministérios do Meio Ambiente entre
1993 e 1994 e da Fazenda em 1994.
IHU On-Line - As três crises mundiais (financeira, alimentícia e
imobiliária) contribuíram para o fracasso da Rodada Doha? Países
ricos e emergentes estão adotando políticas mais reclusas?
Rubens Ricupero – Não há dúvida que contribuíram, porque, em época
de crise econômica acentuada como a dos americanos, aumenta a
insegurança, e, portanto, o sentimento de protecionismo que é,
sobretudo, sensível nos Estados Unidos. Acredito que o problema dos
alimentos pesa muito, porque as pessoas têm receio de que uma
liberalização da agricultura com a redução dos subsídios possa
produzir um aumento adicional deles. Provavelmente isso aconteceria,
mas, depois, essa medida acabaria favorecendo o aumento da oferta e
o mercado se equilibraria.
IHU On-Line – Por que o senhor acredita que a Rodada Doha foi um
fracasso?
Rubens Ricupero – Para o Brasil foi um fracasso, porque,
infelizmente, o país não conseguiu o avanço esperado na área da
agricultura. Para a OMC (Organização Mundial do Comércio), a Rodada
também foi um problema, porque, sem chegar a um consenso, a
organização se enfraquece. De qualquer modo, isso não quer dizer que
as alternativas se esgotaram. A Rodada Uruguai do GATT (1986-1994),
por exemplo, fracassou na reunião de Bruxelas, em dezembro de 1990.
Ela ficou parada durante dois anos e depois foi retomada com grande
vigor, terminando num nível alto de ambição. Não há nada
irremediável.
IHU On-Line - Os países do G-20 não costumavam aceitar as propostas
dos EUA e da Europa no que se refere à agricultura. Como o senhor
percebe a posição do Brasil, que logo no início das negociações
estava concordando com as medidas apresentadas pela União Européia?
O que isso significa?
Rubens Ricupero – Sobre esse assunto, devemos fazer duas
qualificações. Primeiro, houve uma evolução na posição da Europa e
dos Estados Unidos no curso da reunião de Genebra. Eles acabaram
ampliando as ofertas comerciais, e chegaram mais perto do que o
Brasil desejava como concessão em agricultura. Portanto, isso ajudou
a permitir uma mudança da posição brasileira. Em segundo lugar, devo
dizer que a atitude do Brasil era inevitável. Cedo ou tarde, o país
teria de se separar de alguns países do G-20 que não têm interesse
na liberalização agrícola. Essa já era uma ruptura anunciada.
Uma aliança temporária
O G-20 foi criado por causa da reunião de Cancún, no México, como
resposta à postura que os europeus e americanos tinham assumido em
relação à agricultura, a qual era muito insatisfatória para os
países em desenvolvimento. Fiquei surpreso que eles conseguiram
sobreviver tantos anos, porque essa aliança era apenas de
circunstância. Sabia-se que, dentro desse grupo, havia países
genuinamente interessados na liberalização agrícola, como o Brasil,
que tem uma competitividade alta nesse setor.
Penso que o país fez bem em concordar com as propostas sugeridas
pela União Européia. Embora a proposta oferecida não fosse ideal,
percebia-se a possibilidade de firmar um acordo aceitável, mais
modesto, mas que dava ao Brasil um avanço na agricultura. O
interesse nacional exigia que o país tivesse uma atitude de
aceitação. Nós não poderíamos ficar numa postura negativa apenas por
causa das dificuldades existentes na Índia, China e Argentina. Os
vizinhos argentinos, por exemplo, se encontram hoje numa fase de
reindustrialização da indústria que perderam, devido à política
econômica dos últimos anos. Por isso, eles apresentaram uma atitude
muito intransigente. Mas esse não era o caso do Brasil. O país fez
muito bem ao mostrar flexibilidade, e isso nos dá agora um certo
crédito para tentarmos, junto a grandes países, como os da Europa,
os Estados Unidos e o Japão, acordos não muito amplos, mas sobre
determinados produtos, como o etanol, ampliando um pouco as
expectativas de mercado.
IHU On-Line – Essa posição “flexível” do ministro Celso Amorim
reforçou a preferência do governo brasileiro pelo agronegócio?
Rubens Ricupero – Em parte, a posição brasileira reflete os
interesses do agronegócio, mas isso é inevitável, devido à estrutura
da produção agrícola desenvolvida no Brasil. Nesse momento, o país
está cada vez mais concentrando suas exportações num pequeno número
de produtos, que são produzidos por grandes produtores, como o caso
do minério de ferro, com a Vale do Rio Doce, do complexo soja, da
carne bovina e suína. Mas, nesse caso, não vejo muitas escolhas,
porque o país não apresenta muitas vantagens competitivas no
comércio mundial. Se nós não recebêssemos algum tipo de compensação
para ter acesso ao mercado agrícola da China ou da Índia, ficaríamos
numa posição muito desvantajosa em relação a esses países, porque a
China tem hoje um espaço muito forte no mercado brasileiro de
manufaturados. Ora, o Brasil só pode competir com esses gigantes na
área de agricultura.
IHU On-Line – Como o senhor percebe a entrada de capital estrangeiro
no Brasil? Esses investimentos têm “mascarado ou segurado” a
inflação brasileira?
Rubens Ricupero – Percebo vantagens e desvantagens. O investimento
estrangeiro vem para ficar e ajudar o Brasil em áreas tecnológicas
ainda não desenvolvidas. Além disso, contribui para aumentar a
capacidade de exportação, é positivo. Veja que alguns investimentos
brasileiros foram possíveis devido à entrada de capital estrangeiro
no país. Hoje em dia, a maioria das nossas indústrias automotiva e
naval são de capital estrangeiro, mas isso não é negativo, pois
esses investimentos permitiram o desenvolvimento de setores em que o
Brasil não apresentava nenhuma capacidade.
O problema se dá, sobretudo, em áreas de especulação pura. Os
investimentos que entram no mercado nacional apenas para explorar
serviços financeiros, bancários ou de telefonia, representam uma
pressão contínua na balança de pagamentos através da remessa de
lucros e dividendos. De todos os tipos de investimentos existentes,
os piores e menos desejáveis são os fluxos financeiros de curto
prazo, especulativos, os chamados capitais de arbitragem, que vêem
ao Brasil apenas para ganhar com o diferencial de juros. Esses são
grupos que levantam recursos no exterior, especialmente no Japão e
nos Estados Unidos, a juros negativos, abaixo da inflação, e
investem na Bolsa de Valores ou em papéis de renda fixa, a juros
muito maiores. Esse tipo de capital é muito nocivo e contribui para
a volatilidade e insegurança em matéria financeira.
IHU On-Line - Mudar a política econômica, baixando os juros, por
exemplo, tornaria o Brasil mais competitivo no mercado
internacional, possibilitando a realização de acordos bilaterais?
Essa medida é mais eficiente do que longas negociações como Doha?
Rubens Ricupero – Juros mais baixos e câmbio mais favorável
beneficiariam muito mais do que qualquer concessão, porque as
negociações comerciais, mesmo quando terminam bem, só produzem
efeitos depois de quatro ou cinco anos.
Mas, no caso brasileiro, temos um problema muito grave: o câmbio
está incidindo de uma maneira muito negativa e estimulando um
aumento de importação de 40%, enquanto que nós só conseguimos
aumentar as exportações por volta de 20%, e assim mesmo por causa da
melhoria dos preços. Esses podem começar a fraquejar por causa da
conjuntura americana e da crise internacional. Corremos o risco de
ficar numa situação muito precária em matéria de balanço comercial,
de contas correntes e de pagamentos. Isso é muito mais grave do que
o resultado negativo da Rodada Doha até agora.
Negociações acertadas
O êxito de um país por meio das exportações depende de três
elementos por ordem de importância: primeiro, a taxa de câmbio deve
ser ligeiramente desvalorizada; segundo, necessita capacidade de
oferta, isto é, o país precisa oferecer, no mercado mundial,
produtos com preços e qualidade competitivos; terceiro, depende das
oportunidades criadas por negociações tanto da OMC como de acordos
bilaterais ou regionais.
As duas primeiras condições são as mais importantes. Casos como o da
China e Taiwan provam isso, pois são os dois países que mais êxito
tiveram através das exportações, e até poucos anos atrás não faziam
parte do GATT e da OMC. O que eles tinham de sobra era a vantagem do
câmbio e a capacidade de oferta.
Infelizmente, nesse momento, o Brasil tem uma vantagem comparativa
em agricultura, mas um câmbio desfavorável e não apresenta uma
capacidade de oferta muito grande. Por isso, mais do que as
negociações internacionais, a prioridade para o país é conseguir
criar um ambiente macroeconômico, em que possamos ter taxas de juro
e de câmbio mais estimuladores. Por esses motivos, acredito que,
embora tivéssemos tido um ganho nessa negociação de Doha, ainda
assim, os nossos problemas cambiais não ajudariam a aproveitar essas
oportunidades.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a maneira como o ministro Guido
Mantega tem conduzido a economia do país, pensando na inflação, por
exemplo?
Rubens Ricupero – Posso dizer que a economia está razoável,
crescendo. Apenas corremos o risco de um retorno da inflação. Nesse
sentido, será importante a contribuição do Ministério da Fazenda na
contenção do aquecimento excessivo dos gastos do governo e do
consumo em geral, como uma maneira de evitar que se dependa
exclusivamente dos juros para combater a inflação. Mas acredito que
isso esteja sendo cogitado.
IHU On-Line - Com a elevação dos investimentos estrangeiros no país,
surge uma nova classe social que poderíamos denominar de
"super-ricos", como Eike Batista e Dantas, por exemplo?
Rubens Ricupero – O fato de que há super-ricos é um fenômeno que
está ocorrendo devido ao enorme desenvolvimento da atividade de
intermediação financeira, no Brasil e no mundo. Claro que é um
fenômeno complicado e negativo, mas não chega a configurar uma
classe, porque uma classe em geral é alguma coisa formada por um
número substancial de indivíduos. Não vejo isso acontecendo no
Brasil. É um certo exagero.
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