Por Maria Clara R. M. do Prado,
Valor Econômico, 04 de julho de 2024

 

“Memórias”, de autoria do embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e Amazônia e também da Fazenda no governo Itamar Franco, conta a história brasileira dos últimos 63 anos, conforme testemunhada por ele, desde que chegou a Brasília como jovem diplomata e foi designado para fazer parte do governo de Jânio Quadros. A narrativa dos episódios transcorridos ao longo da vida é intermediada por observações atualizadas do autor, o que torna o texto não só dinâmico, mas elucidativo da conturbada trajetória política do país.

O livro, recém-lançado, ajuda não apenas a rememorar fatos relevantes. Tem também o mérito de não os deixar soltos no ar, uma vez que são de alguma forma encadeados direta ou indiretamente, uns redundando nos demais. Não se sabe se essa relação de causa e efeito foi uma escolha consciente de Ricupero ou se tomou forma à medida que a escrita se desenvolvia. Seja como for, faz com que a leitura de “Memórias” prenda a atenção do início ao fim, a despeito de suas 684 páginas.

Desde o desaparecimento de Ge-túlio Vargas, em agosto de 1954, o país experimentou a ascensão à Presidência da República de cinco vice-presidentes (um pelo suicídio do titular, um por renúncia, um por morte antes da posse e dois por impeachment). Nestes 70 anos da República, apenas cinco presidentes eleitos como tal conseguiram completar seus mandatos: Juscelino Kubitschek; José Sarney, empossado presidente com a morte de Tancredo Neves; Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos), Luiz Inácio Lula da Silva (em seu terceiro mandato) e Jair Bolsonaro. Não se considera o período militar na lista por razões óbvias.

Rubens Ricupero foi testemunha próxima de importantes acontecimentos políticos do país em pelo menos três ocasiões, em diferentes governos. Na era Jânio Quadros, fez parte de uma subchefia criada no gabinete da Presidência da República. Nessa posição, ele pode acompanhar de peito o governo errático de um político confuso e despreparado. Na condição de assessor para relações com o Congresso, Ricupero presenciou a pressa com que os opositores correram para “decretar vaga a Presidência da República” após a renúncia, de modo a garantir a posse de Jango Goulart, o vice-presidente de esquerda.

Durante o breve período do parlamentarismo, serviu como elemento de ligação entre o então chanceler San Tiago Dantas e o gabinete do primeiro-ministro, cargo exercido por Tancredo Neves.

Com uma visão alargada do mundo, o livro destaca o cenário internacional prevalente na época. A guerra fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética conheceu o seu momento mais perigoso em 1961 com a invasão norte-americana na Baía dos Porcos, na costa sul de Cuba. O risco de guerra nuclear foi usado pela primeira vez como arma política, a partir da instalação de mísseis em Cuba por parte dos soviéticos, em 1962. Naquela época, os americanos se imiscuíam diretamente nos assuntos políticos da América Latina, provocando reações e contrarreações que redundaram em apoio a vários golpes militares na região. O medo do comunismo tudo justificava.

No início do governo militar, Ricupero foi questionado sobre quais seriam as suas posições políticas. Servia então no corpo da embaixada brasileira em Viena, seu primeiro posto no exterior.

De volta ao Brasil, participou da campanha de Tancredo Neves nas eleições indiretas, tendo sido designado para a subchefia especial da Casa Civil e mantido na função por Sarney. De abril de 1986 a setembro de 1987, atuou como assessor especial do presidente da República. No Palácio do Planalto, Ricupero acompanhou indiretamente o Plano Cruzado (fevereiro de 1986) e a moratória da dívida externa.

“Especula-se às vezes o que teria sido a história do Brasil se Tancredo não tivesse morrido. Jamais saberemos, mas tenho para mim que possivelmente não teria sido tão melhor no fundamental. As personalidades contam o essencial da história, no entanto, não se pode fugir da tirania dos problemas. Em matéria de problemas, os militares haviam deixado um mar deles, dentre os quais se destacavam o desafio de reconstruir a estrutura jurídica da democracia e dos direitos humanos num campo de minas e duas heranças econômicas particularmente malditas: a crise da dívida externa e o perigo iminente da hiperinflação. Custou quase uma década encaminhar solução definitiva para as duas questões econômicas, o que só ocorreu com o Plano Real e o acordo com os bancos credores”, diz ele na página 391 de “Memórias”.

Depois de ter servido no exterior como representante do Brasil junto aos organismos da ONU em Genebra e como embaixador em Washington, Ricupero participou de um terceiro momento político no país, sem dúvida o mais importante de todos e aquele que o marcou para o resto da vida. A convite de Itamar Franco, tornou-se ministro da Fazenda como sucessor de FHC, após a incompatibilização deste para disputar a Presidência da República. Encontrou uma equipe já montada. A implementação do Plano Real estava em curso.

No curto período na Fazenda – de abril ao fim de agosto de 1994 – Ricupero adaptou-se ao papel que lhe havia sido reservado, o de comunicar à população os benefícios cia estabilidade, fundamental para assegurar credibilidade à nova moeda. Ele cumpriu a missão de forma tão espetacular que passou a ser visto como a cara do Real naquele breve, porém intenso período.

Saiu do governo no episódio da parabólica – quando antenas parabólicas no interior do país captaram a conversa indiscreta que teve com um editor da TV Globo, enquanto aguardavam o sinal da emissora para a última entrevista que ele daria no dia 1º de setembro de 1994 para marcar o segundo aniversário de mês do Real.

Ricupero pediu desculpas ao país em seguida, com a carta do “mea culpa”. No livro, volta a admitir” o erro cometido na época. O arrependimento de Ricupero é um ato de coragem raramente visto em um homem público. Revela o espírito cívico que orientou a sua carreira e serve de exemplo a todos. Pela precisão e riqueza de informações, a leitura de “Memórias” é imprescindível para se entender os fatos que moldaram o país.

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista formada pela PUC-Rio, é autora do livro “A Real Historiado Plano Real”, em versão impressa e digital.