Diego Lobo Coppio

O ex-diplomata e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, Rubens Ricupero, foi convidado à FEAUSP para a apresentação e sessão de autógrafos de sua autobiografia “Memórias”, no último dia 26 de setembro. Com a mediação de Roberto Teixeira, fundador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), Ricupero compartilhou suas experiências nos diversos cargos que ocupou, e opinou sobre os conflitos geopolíticos que atingem o mundo nos dias de hoje.

O evento foi organizado pelo professor Gilmar Masiero, do Departamento de Administração, e pela Editora Unesp, responsável pela publicação do livro em junho deste ano.

Papel na Fazenda

Formado pela Faculdade de Direito da USP — mas com uma passagem incompleta pelo curso de Economia da FEAUSP —, Ricupero iniciou sua trajetória na diplomacia em 1960, ano em que se formou na Instituição Rio Branco, e logo no ano seguinte se transferiu para Brasília como um dos primeiros voluntários na nova capital.

Ao se lembrar do período, Ricupero refletiu sobre a dualidade do governo de Juscelino Kubitschek, que, ao mesmo tempo em que marcou o auge da República de 1946, teve como herança uma grave inflação. “O JK deixou uma grande herança positiva, que foi ter vendido ao povo brasileiro a paixão pelo desenvolvimento. Hoje essa ideia está muito desgastada, já houve muita desilusão, o sentimento de esperança da juventude na década de 1950 não existe mais. Mas ao mesmo tempo ele deixou uma herança negativa. Ele convenceu as pessoas de que a inflação era positiva, um estímulo ao crescimento econômico. Uma crença que custou a ser extirpada”, opinou o diplomata.

Ricupero contou que convencer as pessoas do contrário foi uma luta árdua durante seu período como ministro da Fazenda em 1994, quando ficou conhecido como o “Apóstolo do Real”, responsável por “catequizar” a população para as novas medidas econômicas da época. “Eu me lembro de visitar até instituições como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, porque as pessoas achavam que lutar contra inflação era uma bandeira de banqueiros, não uma inspiração que devia ser perseguida por todos. Foi um trabalho enorme persuadir as pessoas que nós tínhamos que combater a hiperinflação a qualquer custo, mas acho que tivemos êxito”.

Apesar de acreditar que os primeiros governos Lula se mantiveram fiéis às políticas econômicas de sua gestão, Ricupero enxerga que o governo atual insiste na “ideia infeliz de que o gasto público é um fator autônomo de crescimento por si mesmo”, o que, segundo o diplomata, é um caminho para a volta da inflação.

Todos os caminhos levam a Roma… e a Genebra

Depois de dedicar cerca de 50 páginas no livro para o período no Ministério da Fazenda, Ricupero aborda sua curta passagem em Roma, onde atuou como embaixador, e de lá partiu para Genebra, depois de ser convidado pelo Secretário Geral da ONU à época, Boutros Boutros-Ghali, para assumir o cargo de Secretário Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), cargo que ocupou de 1995 a 2004, juntamente com o cargo de Subsecretário Geral da ONU.

Na UNCTAD, Ricupero contou ter visitado países que, segundo ele, jamais teria conhecido atuando na diplomacia brasileira, como o Camboja, o Iêmen, o Vietnã, entre outros, e ter atuado na implementação de instituições de comércio, desenvolvimento e negociação internacional de alguns desses países, como o Vietnã. “A ONU é recebida de braços abertos, é vista como uma organização amistosa que está lá para ajudar. Eu tive essa experiência que acredito que nenhum brasileiro teve”, contou Ricupero, que disse que teria muito mais para falar da UNCTAD do que entrou na edição final do livro. “Achei que o público geral talvez não entendesse bem o que é o trabalho de uma espécie de uma clínica para países que precisavam de uma política efetiva de desenvolvimento. Às vezes nós fornecíamos até os quadros para criar os ministérios e entidades”, explicou.

Questões contemporâneas

O ex-diplomata analisou brevemente o contexto geopolítico atual, elencando quatro grandes eixos para a compreensão da multiplicação dos conflitos no mundo. O primeiro é o antagonismo entre Estados Unidos e China. Em seguida, a invasão da Ucrânia pela Rússia. Para Ricupero, representou uma quebra de tabu, pois se trata de um conflito de grandes proporções dentro da Europa com um país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU envolvido. O terceiro ponto destacado é o agravamento do conflito entre Israel e a Faixa de Gaza, que não tem previsão de fim.

Por último, Ricupero acredita que o mundo está passando por uma erosão dos padrões de convivência, o que implica em questionamentos quanto ao papel da ONU na geopolítica mundial. Para ele, é preciso entender até onde vai o poder da organização para enfim compreender o papel desempenhado por ela. “As limitações da ONU provêm da falta de vontade política dos países-membros. Todo mundo sabe o que é necessário para reformá-la, ter um Conselho de Segurança mais representativo, mas para isso os membros teriam que reduzir seu poder, e ninguém gosta de fazer isso”.

 

Texto publicado originalmente no site da FEA USP em 29 de Outubro de 2024.