Edmílson Caminha

Falar de si para dizer dos outros. Esse, o sentimento dos grandes memorialistas, como o Nabuco de Minha formação, o Gilberto Amado de Presença na política, o Pedro Nava do Baú de ossos, o Antonio Carlos Villaça de O nariz do morto e o Rubens Ricupero de Memórias (São Paulo : Unesp, 2024). Nada mais tedioso do que as lembranças de quem se reduz a si mesmo, com olhos que parecem voltados para dentro, alheios a tudo que não seja a própria vaidade. Não o memorialismo dos bons escritores que o fazem maior como espécie literária, ao dar substancioso testemunho do tempo e dos lugares em que viveram, da História e das histórias que viram acontecer, marcadas, a primeira, pela força de quem manda; as outras, pela sabedoria dos homens e das mulheres simples, lembrados para sempre.

Assim se leem as 700 páginas das memórias de Ricupero, a começar pelo avô Pietro, que em 1895 deixa Nápoles para “fazer a América” – no Brasil de 1924, seriam quase um milhão e meio de italianos, “gente pobre arrancando a vida com a mão”, como no verso de Caetano Veloso. Imigrantes e oriundi que virariam personagens de António de Alcântara Machado em Brás, Bexiga e Barra Funda, para o qual Ricupero escreveu o prefácio, na edição italiana. À pouca terra de que dispunham na Itália da pós-unificação, somava-se a carência de trabalhadores que os fazia necessários à nossa economia – diferentemente de hoje, nos Estados Unidos e em muitos países europeus, quando o combate à imigração é promessa de campanha dos partidos de extrema-direita. Entre os brasileiros, não (pelo menos ainda não), tamanha a presença da Itália na composição étnica, na história e na cultura de irmãos do Sudeste e do Sul: que seria da riqueza de São Paulo sem a confiança, o trabalho e a luta dos italianos que se fizeram brasileiros por escolha e afeição?

De família modesta, Rubens forma-se em Direito e é aprovado em concurso para o Instituto Rio Branco, cuja prova de cultura geral obedecera à orientação de ninguém menos do que o diplomata Guimarães Rosa. Orador da turma, na colação de grau em 1961, desagradou o paraninfo, presidente Jânio Quadros, a quem parecera “muito pessimista, exagerou nas tintas”. Menos de dois meses depois, o “homem da vassoura” renunciaria, vítima de si mesmo e das circunstâncias expostas por Ricupero com precisão e agudeza:

Um estranho no ninho da política tradicional, não gozava da confiança ou simpatia nem da UDN que o elegera. O Congresso era ainda o que havia sido escolhido em 1958, refletia não o momento da eleição de Jânio em 1960, e sim o apogeu da era Juscelino e de sua coligação PSD-PTB, dois anos antes. Na campanha, as audácias em política externa tinham valido ao candidato de centro-direita o suplemento de votos progressistas que sempre fizeram falta aos udenistas. No governo, essas mesmas ousadias lhe alienavam o apoio dos conservadores e centristas, sem lhe aportar ganhos entre os partidários da volta de JK em 1965.

Havia um ano em Viena, chegam a Rubens, passados quatro meses do golpe de 1964, perguntas que lhe remetera o embaixador Edmundo Penna Barbosa da Silva, membro da Comissão de Investigações do Ministério das Relações Exteriores (tínhamos diplomatas sabujos o bastante para esse vergonhoso papel). Se os dois primeiros itens limitavam-se a indagações comuns, os subsequentes eram verdadeira afronta a um servidor público que representava o Brasil no exterior:

O terceiro soava estranho num tempo em que praticamente nenhum diplomata da ativa militava em partidos: mencionar filiação partidária, se houvesse. Seguia-se instrução para apresentar lista de seis nomes de civis e militares que pudessem atestar sobre minha conduta funcional ou pessoal, de preferência pessoas conhecidas.

O quinto item inquietava pela aparência de manobra policial para que o investigado se incriminasse a si mesmo: “Ligações com movimentos esquerdistas. A que atribuir insinuações a esse respeito. (…)

Daí em diante, sucediam-se perguntas sobre questões de consciência ou opinião:

[…] havia de fato perigo comunista no Brasil até 31 de março? O governo anterior poderia levar o país ao socialismo ou comunismo? Essa possibilidade subsiste?

Na terra de Mozart e de Freud, ainda a sofrer com a extinção do império austro-húngaro e as cicatrizes mal fechadas da Segunda Guerra, Ricupero e a mulher, Marisa, aperfeiçoam-se culturalmente, satisfazem o interesse pela arte, pelo patrimônio histórico, em especial pela música erudita:

Ganhava-se naquele tempo muito menos que os diplomatas de agora. Meu primeiro salário mensal não chegava a mil dólares. (…) Descontado o aluguel, pouco sobrava para as demais despesas. (…) Em compensação, não perdíamos nada que valesse a pena, a principiar pelo menu musical obrigatório, a representação do Fledermaus (O Morcego), a opereta emblemática de Johann Strauss II, na última noite do ano, única vez em que o teatro nacional de ópera se dignava encenar música ligeira. Na manhã seguinte, corria-se ao Musikverein para assistir ao concerto do Ano Novo no qual a filarmônica de Viena interpretava, na grande sala dourada, as valsas e polcas do clã Strauss e outros compositores da era de ouro de Viena.

Em Buenos Aires, Rubens serviria sob as ordens do embaixador Décio de Moura, que, apesar do monóculo extemporâneo, era suficientemente tosco para dizer: “Aqui na embaixada, eu sou a vaca e vocês o rabo; para onde for a vaca vai o rabo, não quero saber de iniciativas”. Por entre o golpe militar que depusera o presidente Arturo Illia e o esforço diplomático para que não se opusessem os argentinos à construção brasileiro-paraguaia da hidroelétrica de Itaipu, houve tempo, como se lê nas Memórias, de perceber que gírias correntes no Brasil – bacana, fajuto, lábia, milico, otário – vêm do lunfardo, jargão de malandros argentinos que se ouve em letras de tango. Bem a propósito, o diplomata brasileiro sugere a leitura de seus comentários linguísticos ao som da “Milonga lunfarda” ou de “La toalla mojada”, na voz de Edmundo Rivero…

Nas alturas andinas de Quito, cujo centro histórico lhe parece “uma Ouro Preto toda em azul e branco”, Ricupero encontra o colega Pedro Carlos Neves da Rocha, “a pessoa mais encantadoramente excêntrica” que conheceu. Evoca-lhe a vida com os detalhes de uma pintura de Brueghel, o Velho:

Morava numa residência de muitos quartos, todos abarrotados de livros. No escritório, os livros escondiam completamente as mesas e outros móveis, esparramavam-se por todos os corredores, subiam as escadas, ocupavam todos os aposentos. (…) Não creio que lesse muito. Parecia contentar-se em adquirir os volumes, seu prazer se resumia a desembalar os tomos, a folheá-los, a destiná-los a um dos quartos especializados por disciplina, a saber que estavam ali ao alcance da mão. (…) Pedro dava a impressão de ter fugido de uma novela de Borges.

Diplomata brilhante, o memorialista não se rendeu ao que pode haver de melhor na profissão: em Roma, deixa a Embaixada do Brasil, com sede no majestoso Palácio Pamphili, para assumir, na insossa Genebra, a secretaria-geral da UNCTAD, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, sob a ameaça de desaparecer por pressão dos Estados Unidos. Segundo Luiz Felipe Lampreia, então ministro das Relações Exteriores, enlouquecera: trocar o glamour romano pelo dia a dia de uma organização cheia de problemas e de incertezas… Certo é que, na Suíça, o que não lhe faltou foi trabalho, diferentemente dos que consideram a diplomacia sinônimo de ociosidade. Grande contador de histórias, Ricupero lembra a do carioca que, sem os documentos furtados em Paris, telefona para a nossa embaixada:

O brasileiro aflito começou então a perguntar ao porteiro português: “Está aí o dr. Vinicius de Moraes? “Não está, não senhor”. E o dr. Rodolfo Souza Dantas?” “Também não está”. E assim foi desfiando três ou quatro nomes de conhecidos que serviam na embaixada, sempre com a negativa do guardião. Não se contendo, exclama o cidadão: “Mas esse pessoal não trabalha de manhã?” E o porteiro, com implacável lógica lusitana: “Não, de manhã eles não vêm, à tarde é que não trabalham!”.

No capítulo “A hora das trevas”, Ricupero emociona ao reviver a fatal entrevista que, então ministro da Fazenda, concedera ao programa “Bom dia, Brasil”, da TV Globo, quando antenas parabólicas captaram o que dissera, fora do ar, ao jornalista Carlos Monforte, sobre o recém-lançado Plano Real: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Humilde, faz um comovente mea culpa:

Boa parte do que falei, mais de 90%, não passou de bobagens, bravatas sobre minha atuação de supostamente indispensável ao governo ou à candidatura FHC. Hoje, não consigo entender o que me levou a dizer tanta coisa absurda e sem sentido.

(…)

O que me faz sofrer é que I made a fool of myself, isto é, fiz papel de tolo, ao me deixar levar pela presunção e a vaidade. Fui, sim, culpado do pecado de hubris, o esquecimento das limitações pessoais, a pretensão de querer ser mais do que era. Como no “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, todos querem ser príncipes na vida, ninguém quer ser ridículo, e foi isso que fui ao longo da conversa. Gostaria de apagar de minha vida aqueles dezenove minutos, mas nunca atribuí a ninguém a responsabilidade pelo que sucedeu, a não ser a mim mesmo.

“Ser diplomata é viver muitas vidas”, escreve Rubens Ricupero. De fato, chega-se ao fim das suas Memórias com a certeza de que existência assim vale, pelo menos, por dez. O que nos faz repetir a frase de Drummond sobre o Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna: “Não é qualquer vida que gera obra desse calibre”.