“O governo dá a cheta! Duzentos mil-réis por mês!” Cheta, na gíria portuguesa, correspondia à nossa “grana”. “Suspenda a tiragem! Temos cheta!” Quem, assim esbaforido, investia a Redação era o gerente de “A Bandeira Nacional”, jornal achacador em que inaugurava sua bem-sucedida carreira de velhacarias o futuro Conde de Abranhos, de Eça de Queirós. Meses depois, o governo suspende esse antepassado do “mensalão”, cabendo a Alípio Abranhos escrever o editorial de despedida, que merece inspirar o discurso de adeus dos deputados renunciantes: “A Bandeira não morre: enrola-se por um momento (…) para se desfraldar ovante, um dia (…) e palpitar então alto no parapeito da Civilização, a todos os ventos da Liberdade!”.

Se invoco essa página, não é para defender a tese de que a nossa corrupção tem raízes lusitanas. Quero apenas sugerir que é hora de admitir que, apesar de caricaturais, os livros póstumos de Eça não estão muito longe da realidade da vida pública brasileira.

O Brasil do passado não seria talvez menos corrupto, mas certamente era mais pobre: não havia cheta para alimentar muita corrupção. Usavam-se, é verdade, outras moedas. Narra, por exemplo, o jornalista José Justiniano da Rocha: “Distribuíam-se africanos, e eu estava conversando com o ministro que os distribuía, e Sua Exa. me disse: ‘Então, seu Rocha, não quer algum africano?’ Um africano me fazia conta. Respondi-lhe (…) ‘Se V.Exa. quer, dê-me um para mim e um para cada um de meus colegas'”.

Tudo era mais pobre e acanhado. Floriano voltava para casa em bonde puxado a burros. No momento em que o viúvo Rodrigues Alves se aprestava a ocupar o Catete, a mulher de Campos Salles escrevia à filha mais velha do presidente eleito para aconselhar dona Catita a ficar com o casal de empregados que havia trazido de São Paulo.

Recomendava-lhe mandar lavar a roupa fora, em lavadeira que “é muito séria, muito pontual, lava e engoma a roupa bem. Mora na ladeira do Ascurra, e não em cortiço, o que é uma garantia”. Tudo isso saía do bolso pessoal, não do Tesouro. “Que saudades da antiga simplicidade brasileira!”, voltaria a escrever Euclides, se visse nossos tempos de “mensalões” e jatos presidenciais.

Concluirá o leitor que, enjoado da sordidez que nos enxovalha, busco fugir do pesadelo do presente. Estarei como Joaquim Nabuco, cujo natalício marcaremos no Recife, dia 19, em seminário patrocinado por Fernando Lyra. Num dos primorosos comentários com que Evaldo Cabral de Mello enriqueceu a ansiada edição dos “Diários” do grande pernambucano, ele observa que, no fim, o prazer de Nabuco só procedia do passado.

Tenho pensado muito em Nabuco, em “Um Estadista do Império”, em que ele mostra como a história do Brasil se confunde com a das sucessivas reformas políticas. Muitas que pareciam então remotas ou mesmo impensáveis passaram a ser rotina envelhecida: a Reforma Saraiva, com a adoção da eleição direta, a universalização do voto até incluir todos os cidadãos adultos, as eleições secretas e sem fraudes pelas quais se fizeram revoluções, a abolição do cativeiro, a Federação, a República, o fim das intervenções militares, das ditaduras, das torturas e dos assassinatos políticos. Até _por quê não?_ a ascensão de um partido de base sindical e popular, a eleição de ex-operário como presidente. Se a última etapa ficou manchada pela corrupção, isso não invalida, não apaga da história o que veio antes, tão importante quanto a multiplicação da população por dez, a expansão da riqueza material e, com ela, o grau de complexidade.

Entre os 117.671 eleitores que elegeram, em 1886, o último Parlamento do Império (o que faria a abolição) e os 100 milhões atuais, há, de todo modo, mais que uma diferença de escala. Veio abaixo a parte da construção destinada a dar suporte político a essa complexidade. De volta ao canteiro de obras, impõe-se remover o entulho e reedificar a casa de acordo com a direção sugerida pelo sentido da nossa história: mais democracia direta, como prega Fábio Konder Comparato, menos poder sem correspondente responsabilidade para as burocracias e elites partidárias e sindicais, mais instrumentos de controle direto e de revogação de mandatos nas mãos de eleitorado crescentemente informado e consciente.

Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 07/08/2005.